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Redação PARADOXO BR ·
Paulo Briguet, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, presenteia os leitores do Paradoxo BR com uma crônica que desafia o ateu a não cair de
Paulo Briguet, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, presenteia os leitores do Paradoxo BR com uma crônica que desafia o ateu a não cair de amor por Cristo – e pelo Natal, claro
Paulo Briguet se descreve como jornalista. Paulo Briguet também diz ser um escritor. Mais que isso. Paulo Briguet fala que é um cronista “ de sete leitores”. Muito mais do que isso. Paulo Briguet afirma ser devoto a Deus.
A verdade é que Paulo Briguet é um escritor, cronista, jornalista e temente a Deus – mas muito, muito, muito mais do que isso, é uma das pessoas mais humildes caminhando pela Terra em 2023.
De fato, se Paulo Briguet fosse inglês ou norte-americano, ele seria idolatrado como autor.
Seu “Nossa Senhora dos Ateus”, lançado em setembro de 2021, é uma obra-prima em estilo e conteúdo. 100 crônicas com profundidade e capricho literário.
No fim do dia, ao analisar seu próprio trabalho, ele dá graças a Deus por ter “alguns” leitores fiéis.
Esse é apenas mais um dia normal na vida de Paulo Briguet. Sua real legião de leitores, certamente, o garantiria um Nobel de literatura.
(…)
Com estilo único e cinemático, Paulo Briguet é um especialista em fazer o ser humano se emocionar pelos detalhes.
Desde o modo que ele descreve a fé, até o modo que ele explica como essa fé e amor aos livros veio de seu pai, que também se chamava Paulo.
A seguir, o Paradoxo BR presenteia você, leitor, com uma crônica natalina de um escritor que um dia foi ateu, mas que se transformou em um cristão dos mais fiéis – e um dos amigos mais prestativos.
(…)
João sobe com uma sacola de compras pelo elevador. O porteiro acena com cara de tédio (raiva? Fome?). Ele vem da única loja que encontrou aberta —uma conveniência — e vai passar a noite de Natal sozinho. Mora no 16º e último andar de um edifício horrível no centro da cidade. O elevador é antigo e trêmulo. “Pelo menos não está quebrado hoje”, comemora João.
Há anos, ele tem um pesadelo recorrente: o elevador não para no último andar — e continua subindo. Algo parecido com a cena de um filme da Sessão da Tarde que João viu na infância. No sonho, João sente medo. O que acontecerá quando a porta do elevador se abrir? João sempre acorda antes que isso aconteça.
A porta do elevador se abre. João entra em seu pequeno apartamento. Inexplicavelmente, ele gosta de morar lá. “Meu Reino é todo deste mundo”, diz João aos amigos, citando Camus, que por sua vez parodiava Cristo. João deposita o conteúdo da sacola de compras sobre a mesa da cozinha. Um macarrão instantâneo; sardinhas Coqueiro; pão Pullman; 250 gramas de queijo prato; uma Coca-Cola de 600 ml; pêssego em lata. É Natal.
João não acredita em Deus. Aconteceu aos 16 anos, quando ele fazia as orações noturnas. No quarto escuro, achou que estava desperdiçando as palavras. Sentiu que não havia interlocutor. E onde antes era o mistério, restou apenas o caos — o poço profundo e escuro de um elevador. Há quem tenha deixado de acreditar em Deus depois de Auschwitz, depois de Hiroshima, depois de Dresden. João, depois do silêncio no escuro.

No elevador, um quadro envelhecido pelo tempo anuncia o regulamento do condomínio. No item 4, está escrito em letras borradas pelo tempo:
É vedado às crianças praticar folguedos nas dependências do condomínio.
A data do regulamento: 25 de dezembro de 1986. O ano e o mês em que João deixou de acreditar em Deus. Como é que alguém pode publicar um regulamento nesse dia?
João passaria o Natal com os pais e a família, mas resolveu não viajar desta vez. Preferiu ficar sozinha em Londrina. Ele tem os seus folguedos particulares. Um deles está reservado para esta noite de Natal: ler o livro que o seu pai lhe deu de presente. O nome do livro é interessante: Por que escrevo? Uma dúvida que João sempre teve.
A obra traz respostas de vários escritores à pergunta do título. João abre a lata de sardinhas Coqueiro e, em seguida, o livro. É Natal.
Escrever, para João, é como acreditar em Deus. Há uma parte compreensível — e uma parte indecifrável. Nos dois casos, o principal é entregar-se ao mistério da criação. João se diverte com a confusão de vozes nas tentativas inúteis de explicar o enigma, mas até aprecia as saídas de alguns escritores:
Se não escrevo, não vivo; fico angustiado… (Dias Gomes) Um verdadeiro escritor escreve pela fatalidade que leva o pinto a quebrar a bicadas a casca do ovo… (Érico Veríssimo) Procuro tornar perceptível o universo católico do mal (François Mauriac) A gente escreve por excesso de ser ou por falta de ser… (João Cabral de Melo Neto) Eu não sei, nunca soube o que é esta estranha atividade. Creio que isso vai acabar em 2027… (Marguerite Duras)
João lê as respostas dos escritores e farta-se de macarrão instantâneo. Ele prefere a maneira bem-humorada e despretensiosa de dizer o inominável. O folguedo entorno do mistério da palavra. Vira as páginas, continua lendo por várias horas.
Escrevo por necessidade. Quando eu tenho um furúnculo e ele está maduro, eu o aperto… (Graham Greene) Escrevo romances para me perpetuar, ter fama, glória, dinheiro, amor, essas coisas comezinhas da vida… (Paulo Francis) Só se escreve para provocar um amigo, comer alguma mulher ou ganhar muito dinheiro… (Ivan Lessa) Para que meus amigos me amem mais… (Gabriel García Márquez) Escrevo porque não sou feliz, é uma maneira de lutar contra a infelicidade… (Mario Vargas Llosa) Para me vigiar. Uma pergunta idiota, uma resposta idiota. Mas sim: para me vigiar. Lawrence Durrell)

Por volta da meia-noite, João fecha o livro e abre a janela do 16º andar. Sente no rosto a brisa oca da noite. Em noites claras, é possível ver não apenas Londrina, mas também algumas outras cidades a dezenas, centenas de quilômetros. A luz humana, porém, é incompatível com o mistério.
Como sempre, a cidade oferece uma linda paisagem. Essa beleza que tantas vezes consolou João em momentos delicados. Pela janela, ele estuda o recorte dos prédios, admira a noite profunda e imagina o poço do elevador. Tendo à mão direita um pão Pullman recheado de queijo prato, ergue um brinde de Coca-Cola à meia-noite. É Natal, hora essa.
A maioria dos amigos está viajando. Alguns deixaram recados na secretária eletrônica. O elevador treme um pouco e leva crianças para a ceia do apartamento de baixo. Elas cantam Noite Feliz — para João, uma das músicas mais tristes já compostas. A canção ecoa pelo poço escuro. Um amigo, advogado e católico, gravou na secretária uma frase do Evangelho: Orai e vigiai. João não pode orar. Ele apenas vigia a noite.
Tenta escrever um pouco, mas não tem um furúnculo. Os amigos estão longe. Não vai ganhar dinheiro. Não deseja mulher no momento. Não terá fama. É infeliz, mas e daí? Nada sabe do mistério. Melhor fazer outra coisa. É Natal; não é hora de escrever.
João se levanta. Resolve cumprimentar o vigia do prédio, presenteá-lo com a lata de pêssego (enganar o tédio, a raiva, a fome). Deixa o apartamento e chama o elevador. Ouve os brindes da ceia no 15º andar. Folguedos. Aperta o botão do térreo — mas o elevador treme e começa a subir.

— Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM. Autor do livro Nossa Senhora dos Ateus.
Redação PARADOXO BR ·
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